Os amantes sem dinheiro

 

Tinham o rosto aberto a quem passava

Tinham lendas e mitos

E frio no coração.

Tinham jardins onde a lua passeava

De mãos dadas com a água

E um anjo por irmão.

Tinham como toda a gente

O milagre de cada dia

Escorrendo pelos telhados,

E olhos de oiro

Onde ardiam

Os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,

E silêncio

À roda dos seus passos.

Mas a cada gesto que faziam

Um pássaro nascia dos seus dedos

E deslumbrado penetrava nos espaços.

 

Autor: Eugénio de Andrade (1923-2005)

Editado por: nicoladavid

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