Soneto da Carta


Amor de minha entranha, escuro flerte,
em vão espero uma cartinha tua,
e penso, como a flor murcha da rua,
que se vivo sem mim, quero perder-te.

Nosso ar é imortal, e a pedra incrua,
não conhecendo a sombra - não a evita,
coração interior não necessita
do mel gelado que nos verte a lua.

Porém sofri por ti, sangrei, fiz cenas,
tigre e pomba, em tua volta, ó criatura,
em duelo de mordiscos e açucenas.

De vozes me enche, oh, vem, minha loucura!
Ou deixa-me viver com minha penas
a noite da alma para sempre escura.

Autora: Emily Dickinson (1830-1886)
Editado por: nicoladavid


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