Solstício

 a Eugénio Lisboa



Nunca se regressa do tempo mas dos espelhos,
lagos onde te debruças e espreitas o silêncio
do teu rosto.
Cada manhã lembram-te, como um severo juiz,
o órfão menino que foste.
No fundo dos olhos perderam-se as garças,
a clara e pueril sombra das olaias,
Setembro cantava ainda sobre os ombros
ou entre as primeiras chuvas da tua vida.
Foi um instante: o lume que te levou
à alegria eterna de um momento
foi-se apagando nas mãos, oiro e pedra
da alma.
Até a paciência se tornou numa guitarra calada.
Mas não percas nisso o canto.
Daqui a pouco te levantarás da melancolia,
essa cama de equívocos onde o corpo se deita
cansado e que acaba por sequestrar o coração.
Enquanto os presidiários do fatalismo se encerram
nos labirintos da solidão, segue por outro caminho
em direcção ao sul, à casa e à claridade
onde os teus passos nasceram
em corrida para o rio.

Autor: Eduardo Bettencourt Pinto
Editado por: nicoladavid


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