Marcha


Por sobre mares,
rios, 
por altos montes,

canaviais ao sol e matagais sombrios,
a destruir e a arquitectar horizontes,
vamos.

Porém, ao fim, sempre um outro sossego de alamedas
onde nunca estamos?

Reminiscentes alamedas...
Ah, nunca cheias de cachos de uvas,
sempre habitadas

de ecos dormentes de sons de guizos,
sonhos outrora de escarpas e veredas

por onde, sob o tilintar da luz do sol com chuva, 
homens agarravam Evas fugitivas, 
aos gritos e aos risos!

E não acabam
as algas verdes de mistério,
lodos verdes de certezas tristes;
as belas silvas serpentinas,
oiros de areias que são brasas,
asas
que são bicos e garras de rapinas!

Agora, no ar livre,

para o sonho de ultrapassar o voo de aves,
o frio — uma prisão;
e a cerração,
cegueira imensa da atmosfera.
Oh, a visão da nuvem que, suspensa,
lá, para uma vida de ilusão estática,
desliza branca no azul,
com a lembrança da que forte
e feia
corre para a morte...

Ah, não acaba, não, 

tudo o que em fogo
torna visível
a forma da tentação,
inatingível?

E ora corremos,
ora paramos.
Se descansamos
e adormecemos
nos ergue o vento!
que vamos indo
chorando e rindo
toda a alegria do sofrimento.
Ó  tecto das cavernas!
Ó penas na cabeça!
Ó dor de homens às feras!
Guerras e penitências medievas,
ó de ontem, cabalísticas quimeras!
Cosmografia do mar, do ar,
ó guerra de hoje a renascidas trevas!
Amor, amor,
instinto do sem-fim,
onde nos levas?


Autor: Eduardo Bettencourt Pinto
Editado por: nicoladavid


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