Ilha


Deixaste-me partir descalço
sobre as minhas feridas.
Onde estás, companheira de todas as águas?
A noite é uma janela aberta sobre o mar.
Os vasos das gardénias mais sombrias quebram-se
de encontro ao silêncio.
Ouvi os violinos nas catedrais da tarde;
cavalos de sombra trotaram por entre as árvores,
na tua fronte, nas chamas que crepitavam
nas tuas mãos esquivas.
Já não vejo o teu rosto
nos pingos de chuva que cobrem o pára-brisas.
Afasto-me aos poucos de Julho,
do mês em que mais cresceste dentro de mim.
Tens, sei, a natureza das florestas no Outono,
e são bravos os teus cabelos como os pinheiros da costa.
Escondo-me agora na minha cama de pedra,
nos meus sonhos de vidro, nos lençóis de luar com que cubro
agora os momentos mais fundos sem ti.

Autor: Eduardo Bettencourt Pinto
Editado por: nicoladavid


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