Amina Lawal


Tens Wasila, a tua filha, junto à melancolia do rosto.
Quando ela se afastar do teu peito para descobrir o mundo,
chegarão os carrascos do regime com as mãos cheias de pedras.
Juntar-se-á uma multidão de cobardes ao teu redor,
clamando pela justiça do ódio.
Terão olhos para te ver caída entre a poeira das suas alparcas?
Que delito receber no corpo as sementes de um homem
que te amou?
És uma mulher bela, Amina; esse é o teu pecado e infortúnio.
Os oráculos da lei, que confundem amor com crime, festejam
a morte como uma dádiva da justiça.
Por isso o calor da tua pele estala a noite que me rodeia.
O teu nome, Amina, voa como um murmúrio sobre os mapas.
Atravessa oceanos, montanhas e cidades e cai
no espanto de todos nós como uma borboleta que perdeu as asas
entre as tulipas do Outono.
Enquanto Wasila cresce nos teus braços, a tua vida
mingua no rumor do seu corpo — esse é o calendário
que os senhores da morte estipularam.
Os passos que a levarem ao quintal para ver as mangueiras,
o balbucio das primeiras palavras,
as papas de milho e o sumo de tangerina,
serão o gáudio decrescente da tua vida.
Morreremos todos contigo, Amina, se do amor só restar
as tuas cinzas.

Autor: Eduardo Bettencourt Pinto
Editado por: nicoladavid


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