"Da caça que se caça em Portugal"

 
 
 

(Da caça que se caça em Portugal, feita no
ano de Crysto de mil quinhentos XVI)

Ó que caça tam real
que se caça em Portugal!

Rica caça, mui real,
que nunca deve morrer,
pera folguar de lhe correr
toda jente natural.

Linda caça, mui sobida,
se descobre em nossa vida,
a qual nunqua foi sabida,
nem seu preço quanto val.

O da gram mata Lixboa,
onde toda caça voa!
Arabia, Persia e Goa,
tudo cabe em seu curral.

Calequd e Cananor
Melláqua, Tauriz menor,
Adem, Jafo jnterior,
todos veem per huú portal.

Talhamar da grã riqueza,
Damasquo com fortaleza,
Troia, Cairo, cõ sa grãdeza,
nom domarom nunqua tal.

Ho mui sabio Salamom,
que fez o grande montom,
teve [sa] parte e quinhom,
mas nom todo ho cabedal.

Ouro, aljofar, pedraria,
gomas e especearia,
toda outra drogaria
se recolhe em Portugal.

Onças, liões, alifantes,
monstros e aves falantes,
porçelanas, diamantes,
he ja tudo mui jeral.

Jentes escondidas,
que nunqua foram sabidas
sam a nos tam conhecidas
como qual quer natural.

Jacobitas, Abassinos,
Cataios, Ultramarinos,
buscam Godos e Latinos
esta porta prinçipal.

Ho avangelho de Cristo
çinquo mil legoas [he] visto,
e se cre ja la por jsto
ho misterio divinal.

Rezam he que nom nos fique
a alma do ifante Anrique,
e que por ela se soprique
ao nosso Deos çelestrial.

Por que foi desejador,
e o primeiro achador
d' ouro, servos e hodor,
e da parte oriental,

O poderoso rei segundo
Joham perfeito, jocundo,
que seguio este profundo
caminho tam divinal,

O cabo da Boa Esperança
descobrio com temperança,
por sinal e demonstrança
d'este bem, que tanto val.

A madre consolador,
de muito bem sostedor,
em virtudes fundador,
sua parte tem igoal.

D'el rei Dõ Johã parçeira,
Dona Lianor, erdeira
natural, e verdadeira
rainha de Portugal.

E Manuel sobrepojante,
rei perfeito, roboante,
sojugou mais por diante
toda a parte oriental.

Nunqua sejam esquecidos
seus nomes, sempre sabidos,
e de gloria compridos

pera sempre eternal.

Aquele grande prudente
profetizou do ponente
e de toda sua jente
caçar caça tam real.

O grã rei Dõ Manuel
a Jebusseu e Ismael
tomara e fara fiel
a lei toda universal.

Ja os reis do Oriente
a este rei tam excelente
pagem parias e presente,
a seu estado triumfal.

Pola grande confiança
que em Deos tem, e esperança,
he-lhe dada gram possança
de memoria imortal.

O dos mui lindos buscãtes,
rasteiros e tam voantes,
caçadores rastejantes,
que caçam caça real!

Sam conheçidos de cujos
sam estes lindos sabujos;
he bem cevar-lhe os andujos
pera casta natural.

He o tempo acheguado
pera Cristo seer louvado;
cada huú tome cuidado
d'este bem que tanto val.

As novas cousas presentes
sam a nos tam evidentes,
como nunqua outras jentes
jamais virom mundo tal.

He ja tudo descuberto:
o mui lonje nos he perto;
os vindouros tem ja çerto
o tesouro terreal.

 

Autor: Diogo Velho (1469-1500)
Editado por nicoladavid

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