"Canção a Nossa Senhora"

Ó Virgem sobre todas soberana,

De resplendor vestida e luz divina,
De lúcidas estrelas coroada:

 

Se logo a dar remédio vos inclina
Qualquer extremo de miséria humana,
Em que se vê a vida atribulada,

A minha tantas vezes desmaiada
Nesta desventura,

Virgem serena e pura,

Espera ser por vós remediada!

 

Esta grã fé que tenho, esta me valha,
Pois esta me valeu,

Ó Rainha do Céu, na grã batalha!

 

Ó Virgem sempre virgem, do Pai vosso
Sacratíssima mãe, filha e esposa!

Alegria do Céu, da Terra amparo!

A Lua, por que fosse mais formosa,
Por chapins ve-la deu o Filho vosso,

O qual vos escolheu como Sol claro ...
Aquele eterno amor, a vós tão caro,
Do vosso amor dino;

Aquele amor divino,

 

Que já nos libertou do reino avaro;
Tenha conta comigo, à vossa conta,
Antes que mais descaia,

Para que livre saia desta afronta!

 

Ó Virgem, das mais santas a mais santa,
Do inconstante mar fiel estrela,

Porta do Paraíso, estrada e guia,

Volvei os belos olhos, Virgem bela!
Vede tanta estreiteza, mágoa tanta,

Quanta com mágoa choro a noite e o dia!

Não me deixeis sumir, doce Maria,

Neste profundo pego,

Por que povo tão cego,

Como se ri de mim, de vós não ria,
E saiba que deixastes castigar-me

Por grão pecador ser,

E não por não ser do seu livrar-me!

Ó Virgem, de humildade e graça alheia,
Que converteis em riso o triste pranto
Da triste, miserável vida nossa:

Como vos cantarei alegre canto,
Cativo, sem repouso, em terra alheia,
Entre bárbara gente imiga vossa?
Desatai vós esta cadeia grossa,

Que meus erros sem fim

Forjaram contra mim,

Por que, solto por vós, cantar vos possa
N a ribeira do Lima, sem receio

(Ó Madre de Jesus!)

Não do turvo Lucuz, de sangue cheio!

 

Ó Virgem milagrosa, Virgem branda,
Amor do sumo Amor! prazer dos Santos!
Ouvi, Senhora, lá suspiros tantos,

Quantos meu triste peito de cá manda!
Pois vedes que em
I
vós só tenho esperança,
Pesai as minhas culpas na balança

De vossa piedade,

Que de outra qualidade

Mal pode em tal fortuna haver bonança:

Vede que tal me vejo! vede qual
Tão pouco há me vi,

E com tempo acudi a tanto mal!

 

Virgem por cuja mão são repartidas

Mil graças que Deus faz na Terra e Céu,
Que o mesmo Céu e Terra encheis de graça:

Essa mão, que das mãos me defendeu
Que deram cruel fim a tantas vidas,
De ajuda me não seja agora escassa,
Por que a dilação em mim não faça
Que não fez o ferro,
E a dor deste desterro,
Que vai roendo a vida como traça ...
Antes de ser de todo consumida,
Levai-me, pois podeis, .
Onde de mim sereis melhor servida!

Ó Virgem singular, pura, sem mágoa,

Sem sombra de erro algum, por cujo rogo

Se conserva no mundo o ser humano!
Ó
sarça de Moisés, verde no fogo!

Ó plátano formoso junto da água!
Esperança do povo lusitano!

Por vosso amor acuda a tanto dano
O Poder infinito,

Que já no duro Egipto

Outro povo livrou de outro tirano ...
Não olhe o clementíssimo Jesus

A nossos erros sós:

Mas olhe por que nós se pôs na cruz!

Ó Virgem Imperatriz do Céu empíreo,
Preservada de culpa e' escolhida:

Quem vos pode louvar? quem entender?
Ditosos os que sofrem nesta vida,
Tribulação por Deus, cruel martírio,
Pois a Ele e a Vós merecem ver!

Se com penar aqui, se com sofrer

As penas em que vivo;

Se com morrer cativo ~
Tão alto Bem se pode merecer:

Tal vida tenha aqui, tal morte tenha,
Daqui não saia mais,

Por que por meios tais a tal fim venha!

Neste mal que me rouba o
sentimento,
A que valer não posso,

Virgem! o Filho vosso

Algum remédio dê, ou sofrimento ...
Aquilo que mais for sua vontade
Pode fazer de mim:

Que tudo o mais, enfim, é só vaidade!

 

 

Autor: Diogo Bernardes (1520-1654)
Editado por: nicoladavid


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