Madrugada de Alfama


Mora num beco de Alfama
e chamam-lhe a Madrugada.
Mas ela, de tão 'stouvada,
nem sabe come se chama.
Mora num'água-furtada
que é a mais alta de Alfama,
a que o sol primeiro inflama
quando acorda a madrugada.
Nem mesmo na Madragoa
ninguém compete com ela,
que do alto da janela
tão cedo beija Lisboa.
E a sua colcha amarela
faz inveja à Madragoa:
Madragoa não perdoa
que madruguem mais do que ela.
Mora num beco de Alfama
e chamam-lhe a Madrugada.
São mastros de luz dourada
os ferros da sua cama.
E a sua colcha amarela
a brilhar sobre Lisboa
é como 'státua de proa
que anuncia a caravela...

Autor: David Mourão Ferreira (1927-1996)
Editado por: nicoladavid


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