"A “Epopeia” da Morte"


I

Na companhia dos bichos,
Na terra que lhe foi dada,
O homem com os seus caprichos
São o resumo do nada.

Seiva das árvores altas,
A sua carne é do fruto.
O homem com as suas faltas
Paga por fim o tributo.

O homem é cálcio e carbono,
O húmus a nutrir a terra.
O seu corpo é um abono
Doado a faminta terra.

O homem é a pele… E os ossos,
Braços e rins, sangue e dedos,
Carne exalando remorsos,
Pútrida de ânsias, de medos.

O homem enriquece o solo
Como o fez a sua avó.
E repete o protocolo
Assim retornando ao pó.

E a sombra outrora viva
Agora é raiz de um horto.
Foi a solução aditiva
Da terra o seu corpo morto.

Debaixo do chão que o cobre
O homem, servido, é a ceia.
Da terra a ceia tão nobre
Temperado com areia.

Debaixo do chão que o enterra
É o homem a comida farta
Que a fome enorme da terra
Nem os seus ossos descarta.

Debaixo dessas ramagens
O homem alimenta os milhos.
E transforma-se nas vagens
Que nutrirão os seus filhos.

Debaixo do chão que o come
O homem a vida renova.
E sobra apenas seu nome
Para, da vida, dar prova.

II

Propriedade divina,
A morte arrendou esse chão.
E eis que moureja na sina
Do homem nessa plantação.

A lida infinda da morte
É ceifar toda a arrogância,
E plantar toda a coorte
Junto com sua ganância.

III

A morte não quer passagem
Para a viagem fortuita.
E o homem não leva bagagem
Nessa viagem gratuita…

Com o seu infindo labor,
Essa Matrona infalível,
No sofrimento e na dor
Traz a benção indizível.

Com o seu infindo labor,
Essa Matrona usurpável,
No regozijo e no amor
Traz a agonia execrável.

Autor: Daniel Mazza
Editado por: nicoladavid

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