"Serei tão ditoso"

Serei eu algüa hora tão ditoso,

Que os cabelos, que amor laços fazia,
Por prémio de o esperar, veja algum dia
Soltos ao brando vento buliçoso?

 

    Verei os olhos, donde o sol fermoso 
    As portas da manhã mais cedo abria, 
    Mas, em chegando a vê-los, se partia 
    Ou cego, ou lisonjeiro, ou temeroso?

 

        Verei a limpa testa, a quem a Aurora 
        Graça sempre pediu? E os brancos dentes, 
        Por quem trocara as pérolas que chora?

 

            Mas, que espero de ver dias contentes, 
            Se para se pagar de gosto úa hora, 
            Não bastam mil idades diferentes?

 

 

Autor: D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666)
Editado  por: nicoladavid

o esqueça ligar o som.
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