Melhor há de mil anos que me grita

 

Melhor há de mil anos que me grita

Uma voz que me diz: És pó da terra.

Melhor há de mil anos que a desterra

Um sono, que esta voz desacredita.

 

Diz-me o pó que sou pó? e a crer me incita

Que é vento, quanto neste pó se encerra:

Diz-me outro vento que esse pó vil erra.

Qual destes a verdade solicita?

 

Pois se mente este pó, que foi do Mundo?

Que é do gosto? que é do ócio? que é da idade?

Que é do vigor constante, e amor jucundo?

 

Que é da velhice? que é da sociedade?

Tragou-me a vida inteira o mar profundo?

Ora, quem diz sou pó, falou verdade.


Autor: D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666)
Editado por: nicoladavid

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