Esperteza e Perspicácia da Raposa

 

Quando tudo era falante

diz que a raposa caiu

num poço de água abundante,

chegou um lobo arrogante,

que passava, acaso, e a viu;

De uma soleira, pendurava

(porque o poço era profundo)

uma corda, a qual atava

dois baldes; um no alto, estava

n’outro a raposa no fundo.

Pois a bicha que era arteira

chama o lobo, e diz: senhor

já que eu não fui a primeira

socorrei vossa praceira,

que eu sei que tendes valor.

Ora assim, sem mais porfia

o lobo que é fanfarrão,

já no balde se metia;

ele cai, ela subia,

por uma mesma invenção.

Toparam-se a o perpassar,

e o lobo meio caído

nem lhe ousava de falar;

ela a rir, e arrebentar

de se ver também subindo.

Em fim a o medo venceu,

fala o lobo, e diz: Comadre

isto vos mereço eu?

ela a zombar do sandeu;

nem lhe quis chamar compadre.

Mas diz-lhe: Dum vagabundo:

teus queixumes não me empecem;

acaba já de ir-te ao fundo;

isto são colzas do mundo,

quando um sobe, os outros descem.


Autor: D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666)
Editado por: nicoladavid

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