Apólogo da Morte

 

Vi eu um dia a Morte andar folgando

Por um campo de vivos, que a não viam.

Os velhos, sem saber o que faziam,

A cada passo nela iam topando.

Na mocidade os moços confiando,

Ignorantes da morte, a não temiam.

Todos cegos, nenhuns se lhe desviam;

Ela a todos c’o dedo os vai contando.

Então, quis disparar, e os olhos cerra:

Tirou, e errou! Eu, vendo seus empregos

Tão sem ordem, bradei: Tem-te homicida!

Voltou-se, e respondeu: Tal vai de guerra!

Se vós todos andais comigo cegos,

Que esperais que convosco ande advertida?


Autor: D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666)
Editado por: nicoladavid

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