"Dois Sonetos"

 

I

 

Cheios de espessa névoa os horizontes.
Espantosas voragens. vêm saindo!

Foi-se o Sol entre nuvens encobrindo.
Voltando para o mar os quatro Etontes.

 

Caiu a grossa chuva pelos montes.
Os incautos pastores aturdindo;

E, engrossando, os rios vão cobrindo
Com embate feroz as curvas pontes.

 

Com medonho estampido, pavorosos.
Os longos ecos dos trovões soando.
A rezar nos pusemos temerosos.

 

Parou a chuva; correm sussurrando
Os torcidos regatos vagarosos;

Não me atrevo a sair, fico jogando.

 

 

I I

 

Que é dele o cabeção do P. António?
Onde tem o chapéu, mais a bengala?
Francisca, vê se podes apanhá-Ia:

Fugir-nos se intentava, era bolónio.

 

Ora anda, rapariga do demónio;
Espera, escuta se ressona ou fala.
Acordaste-o? Valha-te uma bala;

Pois perdeu duas missas Santo António .

 

Deus te salve. Delfim, muito bons dias:

Queres chá ou café? A Misse Rosa
Tem ordem de fazer-nos às fatias.

 

Quanto esta manhã fresca é deliciosa,
Quanto de Inverno são as noites frias,
Para nós tua vista é saborosa,

 

 

Autor: Correia Garção
Editado por: nicoladavid

 

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