"As Arcas de Montemor"


Entre escombros, na rudeza
Da vetusta fortaleza,
Batidas do vento agreste,
Empedernidas, cerradas,
Há duas arcas pejadas:
Uma de oiro, outra de peste.
Ninguém sabe ao certo qual
Das duas arcas encerra


O fecundo manancial
Que fartará de oiro a terra
Mesquinha de Portugal;
Ou qual, se mão imprudente
Lhe erguer a tampa funérea,
Vomitará de repente

A fome, a peste, a miséria,
Que matarão toda a gente!
E nestas perplexidades
E eternas hesitações

Têm decorrido as idades,
Têm passado as gerações;
Nas guerras devastadoras,
Nas lutas brutais e ardentes,
Entre as raças invasoras

E as povoações resistentes,
Nunca Romanos, nem Godos,

Nem Árabes, nem Cristãos,
Duros na alma e nos modos,
Rudes no aspecto e no trato,
Chegaram ao desacato

De lhes tocar com as mãos.

Sempre que o povo faminto,
Maltrapilho e miserando,
Fosse ele cristão ou moiro,
Entrou no tosco recinto
Para salvar-se, arrombando
A arca pejada de oiro,

Quedou-se, os braços erguidos,
O olhar atónito e errante,

Sem atinar de que lado

Vinha morrer-lhe aos ouvidos
U ma voz de agonizante,
Entre ameaças e gemidos:

Ó povo de Montemor,
Se estás mal, se és desgraçado,
Suspende, toma cuidado,
Que podes ficar pior!»

E nestas perplexidades
E eternas hesitações
Hão-de passar as idades,
Suceder-se as gerações,

E continuar na rudeza
Da vetusta fortaleza,
Batidas do vento agreste,
Empedernidas, cerradas,
As duas arcas pejadas,

Uma de oiro, outra de peste.

 

 

Autor: Conde de Monsaraz (1852-1913)
Editado por: nicoladavid

 

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