Um Cadáver Putrefacto

 

Lembras-te, meu amor, duma coisa que vimo,
Nessa doce manhã de Verão:
Numa curva de estrada, um fétido cadáver,
Deitado num monte de seixos,

As pernas para o ar, qual lúbrica mulher
Em lume, a transpirar peçonha,
Aberto expunha, de forma insolente e cínica,
Prenhe de exalações, o ventre.

Sobre esta podridão, o sol resplandecente
Par'cia sazoná-la a ponto,
Centuplicado à natureza devolvendo
O que ela num todo associara.

E contemplava o céu a arrogante carcaça
Como - se fora flor a abrir-se.
Era o fedor tão intenso que até julgaste
Ir desfalecer no relvado.

Zumbia o mosquedo sobre o pútrido ventre,
Donde saíam negras nuvens
De larvas que, rio viscoso, se escoavam
Por entre aqueles trapos vivos.

Tudo, fulgindo, ora subia, ora descia
Ou, como vaga, arremessava-se;
Por sopro entumecido, o corpo se diria
Multiplicado reviver.

E transmitia o mundo estranha melodia,
Que era de curso de água e vento
Ou de grão que o peneireiro com gestos rítmicos
Agita e revolve no crivo.

A forma, de apagada, era só ilusão,
Esboço que tarda a apar'cer
Na tela desprezada e que o artista acaba
Só pela memória apoiado.

Atrás das rochas, uma cadela intranquila
Fixava em nós hostil olhar,
Espiando a ocasião de arrebatar à ossada
A talhada que antes largara.

— E, no entanto, com este lixo hás-de par'cer-te,
Este dejecto pavoroso,
Estrela dos meus olhos, sol da minha vida,
Tu, anjo meu, minha paixão!

Assim serás, rainha das graças, após
Os derradeiros sacramentos,
Ao ires, sob a relva e as carnudas flores,
Ganhar bolor entre as ossadas.

Então, ó minha bela, contarás aos vermes,
Que te devoram de beijos,
Ter eu guardado a forma e a essência divina
Dos meus amores decompostos.

Autor: Charles Baudelaire (1821-1867)
Editado por: nicoladavid

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