Toda Inteira

 

O DIABO, em meu quarto um dia,
Apareceu para me ver,
Pensando que me confundia,
Disse-me: "Eu só queria saber,

De todas as coisas formosas
De que é feito o seu encanto,
De todas as partes negras e rosas
Que de seu corpo o charme é tanto,

Qual é a mais doce?"– Ó minha alma!
Respondeste ao Maldito:
"Pois que ela é um bálsamo de calma,
Nada ela tem de preferido.

E meu ser sempre ao vê-la ignora
Em que encantos dos seus se acoite.
Ela fascina como a aurora,
Ela consola como a noite.

Mas esta harmonia é tão precisa
Que o seu belo corpo governa.
Nossa visão que analisa
Não vê sua beleza eterna.

Ó metamorfose tão mística
Que os meus sentidos já resume!
O seu hálito faz a música
Como sua voz faz o perfume!"


Autor: Charles Baudelaire (1821-1867)
Editado por: nicoladavid

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