Teus pés são finos como as tuas mãos

 

Teus pés são finos como as tuas mãos, e a anca
Roliça causa inveja à mais graciosa branca;
Teu corpo suave e terno o artista ao sonho impele;
Teus olhos negros são mais negros do que a pela.
No país quente a azul que te serviu de limbo,
Teu oficio é acender de teu amo o cachimbo,
Os cântaros prover de águas frescas e odores,
Do leito por em fuga insetos zumbidores,
E, mal a aurora põe o plátano a cantar,
Comprar bananas e ananases no bazar.
Todos os dias, pés descalços, vais andando
E antigas árias nunca ouvidas murmurando;
E quando a tarde faz do céu uma fogueira,
Repousas docemente o corpo numa esteira,
Com sonhos a flutuar, cheios de colibris,
E sempre, como tu, floridos e gentis.

Porque, menina, queres ver a nossa França,
País rico de gente e pobre de esperança,
E, confiando a existência aos rudes marinheiros,
Dizer adeus aos teus sensuais tamarineiros?
Tu, seminua, envolta em musselina leve,
Toda trêmula além, sob o granizo e a neve,
Como lamentarias os teus ócios francos,
Se, o corpete brutal a constranger-te os flancos,
Fosses buscar o teu sustento em nossas lamas
E vender o perfume estranho que derramas,
O olhar absorto, perscrutando em meio aos miasmas,
Dos coqueirais ao longe os pálidos fantasmas!


Autor: Charles Baudelaire (1821-1867)
Editado por: nicoladavid

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