Spleen

 

Não tanto eu lembrara, se tivera mil anos.
Um armário enorme com gavetas derramando
Bilhetinhos, contas, versos, pleitos, romanzas
E enroladas madeixas dentro de recibos,
Menos que a minha memória segredos guarda.

É uma pirâmide, um monumento fúnebre,
Mais mortes abrigando que a vala comum.
— Eu sou um cemitério que a lua abomina,
Onde rastejam, tais remorsos, longos vermes
Que sempre se cevam nos meus mortos mais queridos.

Sou velho camarim cheio de rosas murchas,
Onde jaz a confusão de modas já passadas,
E só pastéis gementes e débeis Boucher
Respiram o aroma de um frasco destapado.

De tão longos, nada iguala os dias truncados;
Sob pesados flocos de nevosos anos,
O Tédio, fruto da triste incuriosidade,
Toma da imortalidade as proporções.

— Agora já só és, ó viva matéria!
Granito envolvido por vago pavor,
Entorpecido ao fundo de um Sahará de bruma!
Velha esfinge que o mundo descuidoso ignora,

Esquecida no mapa, e cujo humor bravio
Apenas canta aos raios do sol a esvair-se.

Autor: Charles Baudelaire (1821-1867)
Editado por: nicoladavid
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