Soneto



Estava eu numa noite com uma atroz Judia,
Como um cadáver com um outro a par deitado,
Quando, junto ao corpo vendido, me ocorreu
A triste beleza que ilude o meu desejo.

Logo lhe evoquei a natural majestade,
O bem nutrido olhar de vigorosa graça,
O perfumado elmo dos longos cabelos,
Que só de tal lembrar para o amor revivo.

Pois teu nobre corpo fervoroso eu beijara
E desde os viçosos pés até às negras tranças
Tesouros te mostrara de intensas carícias,

Se uma vez, espontâneo, aos olhos te ocorresse,
Rainha entre todas cruel, aquele pranto
Que turvasse o fulgor dessas frias pupilas.

Autor: Charles Baudelaire (1821-1867)
Editado por: nicoladavid


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