Obsessão

 

Assustais-me, ó florestas, como catedrais;
Bramis tal o órgão; e nos peitos malditos,
Câmaras de eterno luto, a ressoar velhos ralos,
Respondem os ecos dos vossos De Profundis.

Odeio-te, Oceano! Teus pulos e tumultos
Em meu espírito reencontro! E o riso amargo
Dum homem vencido, feito de ofensa e pranto,
Bem o oiço no colossal riso do mar.

Como eu te amara, ó Noite! Sem essas estrelas,
Cujo brilho me conta coisas bem sabidas!
Pois apenas procuro o escuro, o nu, o nada!

Porém as próprias trevas em telas se mudam,
Onde vivem aos mil, brotando dos meus olhos,
Seres desaparecidos com rostos familiares.

Autor: Charles Baudelaire (1821-1867)
Editado por: nicoladavid

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