O Letes



Vem a meu peito, ó alma insensível,
Amado tigre, de gesto indolente;
Deixa-me os trémulos dedos afundar
Na espessura da tua farta juba;

Nas tuas roupas, de ti impregnadas,
Deixa que eu sepulte a dorida fronte,
E respire, tal uma flor fanada,
O mofo bom do meu defunto amor.

Quero dormir! Dormir mais que viver!
Num sono tão suave quanto a morte,
Sem remorsos, de beijos cobrirei
Teu belo corpo, luzido qual cobre.

Para tragar meu acalmado pranto,
Nada melhor que o abismo do teu leito;
Mora em tua boca um eficaz olvido
E corre o Letes nos beijos que dás.

Ao meu destino, agora só delícia,
Como um predestinado serei dócil;
Mártir também, condenado sem culpa,
Cujo fervor mais excita o suplício,

Hei-de sugar, para afogar meu ódio,
O bom nepentes, a amável cicuta,
Nos belos bicos desse altivo colo
Que nunca teve um coração cativo.

Autor: Charles Baudelaire (1821-1867)
Editado por: nicoladavid

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