O Ideal


Nunca serão as belas desses folhetins,

Produtos sem valor de um século plebeu,

Dedos de castanhola, pés nos borzeguins,

Que irão seduzir um homem como eu.

 

Deixo com Gavarni, poeta da anemia,

O gorjeio infantil das belas de hospital,

Pois não posso encontrar em tanta rosa fria

Uma flor que recorde meu rubro ideal.

 

Meu coração, profundo como abismo, quer

Lady Macbeth, no crime tão grande mulher,

De um Ésquilo o sonho na bruma saxã;

 

Ou bem, de Michelangelo, tu, Noite enorme,

Torcendo devagar numa pose disforme

Teu corpo burilado em boca de Titã!

Autor: Charles Baudelaire (1821-1867)
Editado por: nicoladavid



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