Convite à Viagem



     Minha filha, irmã,
     Pensa em como é doce
Irmos os dois viver longe!
     Amar à vontade,
     Amar e morrer
Na terra que é a tua imagem!
     Os húmidos sóis
     Dos nevoentos céus
Têm para mim o fascínio
     Tão misterioso
     Dos teus olhos falsos,
Luzindo por entre as lágrimas.
Lá tudo é ordem, beleza,
É luxo, paz e volúpia.

     Com móveis luzidos,
     Polidos p'lo tempo,
Enfeitáramos o quarto;
     As mais raras flores
     Seus olores fundindo
Ao leve aroma do âmbar,
     Magníficos tectos,
     Espelhos profundos,
Esplendores orientais,
     Tudo em segredo
     À alma falara
Em sua doce língua própria.

Lá tudo é ordem, beleza,
É luxo, paz e volúpia.

     Vê, pelos canais,
     As naves dormindo
Em seu humor vagabundo;
     É p'ra saciar
     Teus desejos mínimos
Que vão ao cabo do mundo.
     Sempre o sol, ao pôr-se,
     Os campos polvilha
Os canais, toda a cidade,
     Com oiro e jacinto;
     O mundo adormece
Num clarão acalentado.

Lá tudo é ordem, beleza,
É luxo, paz e volúpia.

Autor: Charles Baudelaire (1821-1867)
Editado por: nicoladavid

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