Ciganos de viagem


A tribo que prevê a sina dos viventes

Levantou arraiais hoje de madrugada;

Nos carros, as mulher', c'o a torva filharada

Às costas ou sugando os mamilos pendentes;

 

Ao lado dos carrões, na pedregosa estrada,

Vão os homens a pé, com armas reluzentes,

Erguendo para o céu uns olhos indolentes

Onde já fulgurou muita ilusão amada.

 

Na buraca onde está encurralado, o grilo,

Quando os sente passar, redobra o meigo trilo;

Cibela, com amor, traja um verde mais puro,

 

Faz da rocha um caudal, e um vergel do deserto,

Para assim receber esses p'ra quem 'stá aberto

O império familiar das trevas do futuro!

Autor: Charles Baudelaire (1821-1867)
Editado por: nicoladavid

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