As Janelas



Quem olhe de fora por uma janela aberta nunca vê tantas coisas como quem olha uma janela fechada. Não há coisa mais profunda, miste­riosa, fecunda, tenebrosa, perturbante, que uma janela iluminada por uma vela. Quanto se possa ver à luz do sol sempre será de menor interesse que quanto decorra atrás de uma vidraça. Den­tro desse buraco escuro ou luminoso, a vida vive, a vida sonha, a vida sofre. Para além das vagas de telhados, distingo uma mulher madura, já com rugas, pobre, sempre debruçada para qualquer coisa; nunca sai. Com o seu rosto, o seu vestuário, a sua atitude, com quase nada, reconstruí a história desta mulher, ou antes, a sua lenda, e, por vezes, conto-a, chorando, a mim próprio. Se porventura fosse um pobre velhote, ser-me-ia igualmente fácil reconstruí-la.

E deito-me, orgulhoso de ter vivido e sofrido em outros que não eu.

Dir-me-eis talvez: «Tens a certeza de que a lenda é verdadeira?» Que importa o que seja a realidade colocada fora de mim, se ela me ajudou a viver, a sentir que sou e o que sou?

Autor: Charles Baudelaire (1821-1867)
Editado por: nicoladavid

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