A Vida Anterior



Longo tempo habitei sob pórticos amplos
Que o sol marinho coloria com mil chamas
E os grandes pilares rectos e majestosos,
De noite, iguais tornavam a grutas basálticas.

O marulho, ao rolar as imagens dos céus,
Com mística solenidade conjugava
Os acordes soberanos da sua música
E as cores do poente no 'spelho dos meus olhos.

Foi lá que, em deleitosa calma, eu vivi
No fulcro d'esplendores, entre as vagas e o azul,
E de nus escravos, com perfumados corpos,

Que, palmas agitando, a fronte refrescavam-me,
Não tendo outro cuidado, salvo aprofundar
O segredo amargo de que eu lento morria.

Autor: Charles Baudelaire (1821-1867)
Editado por: nicoladavid

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