A Musa Venal


Ó musa da minha alma, amante de palácios,
Terás tu, ao soltar janeiro o vento norte,
Durante o negro tédio dos serões nevados,
Um tição para te aquecer os roxos pés?

Reanimarás acaso as espáduas de mármore
Co'os raios nocturnos filtrados p'las janelas?
Vendo vazia a bolsa, vazio o palácio,
Irás o oiro colher da celeste abóbada?

Para poderes ganhar o pão de cada noite,
Vais, menino de coro, agitar o turíbulo
E cantar os Te Deum, em que mal acreditas,

Ou, faminto histrião, exibir teus encantos
E o teu riso embebido num pranto invisível
Para que o baço da ralé se desafogue?

Autor: Charles Baudelaire (1821-1867)
Editado por: nicoladavid


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