O Gondoleiro Do Amor

 

Teus olhos são negros, negros, 
Como as noites sem luar... 
São ardentes, são profundos, 
Como o negrume do mar; 
 

Sobre o barco dos amores, 
Da vida boiando à flor, 
Douram teus olhos a fronte 
do Gondoleiro do amor. 
 

Tua voz é a cavatina 
Dos palácios de Sorrento, 
Quando a praia beija a vaga, 
Quando a vaga beija o vento; 
 

E como em noites de Itália, 
Ama um canto o pescador, 
Bebe a harmonia em teus cantos 
O Gondoleiro do amor. 
 

Teu sorriso é uma aurora, 
Que o horizonte enrubesceu, 
-Rosa aberta com o biquinho 
Das aves rubras do céu. 
 

Nas tempestades da vida 
Das rajadas no furor, 
Foi-se a noite, tem auroras 
O Gondoleiro do amor. 
 

Teu seio é vaga dourada 
Ao tíbio clarão da lua, 
Que, ao murmúrio das volúpias, 
Arqueja, palpita nua; 
 

Como é doce, em pensamento, 
Do teu colo no languor 
Vogar, naufragar, perder-se 
O Gondoleiro do amor!?... 
 

Teu amor na treva é - um astro, 
No silêncio uma canção, 
É brisa - nas calmarias, 
É abrigo - no tufão; 
 

Por isso eu te amo querida, 
Quer no prazer, quer na dor... 
Rosa! Canto! Sombra! Estrela! 
Do Gondoleiro do amor. 

Autor: Castro Alves (1847-1871)
Editado por: nicoladavid

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