A Cestinha De Costura

  “Para o livrinho de D. Brasília Vieira”                                                                                                                                                                 

 NÃO quero panteons não quero mármores

Não sonho a Eternidade fria, escura...

Minha glória ideal é o quente abrigo

De uma pequena cesta de costura.

 

À sombra dos terraços florescentes

Entorna a violeta a essência pura:

Flores d'alma recendem mais fragrância

Numa pequena cesta de costura.

 

Batida pelos corvos da procela,

A pomba a era tímida procura:

Pousa minh’alma foragida as asas

Nesta pequena cesta de costura.

 

Astros que amais a espuma das cascatas!...

Orvalhos que adorais do lírio a alvura!

Dizei se há menos lânguidos arminhos

Nesta pequena cesta de costura.

 

Nesse ninho de fitas e de rendas...

No perfume sutil da formosura...

Vão meus versos viver de aroma e risos

Entre as flores da cesta de costura.

 

E quando descuidada mergulhares

Esta mão pequenina, santa e pura,

Possam eles beijar teus níveos dedos

Escondidos na cesta de costura.


Autor: Castro Alves (1847-1871)
Editado por: nicoladavid



Comments