Mãe - Povo

 

Povo bom e sério

Dá-me a tua mão

E sopra com força

No meu coração!

 

Vê lá se esta brasa

Ainda tem vida

— Calor de uma esperança

Ou coisa parecida.

 

Se ainda tiver

(Isto, assim, que seja...)

Ensina-lhe o ritmo

Com que o teu lateja.

 

Abre o teu olhar.

Abre a tua pele;

Dá-me o teu mistério

Que eu sou digno dele!

 

Andei transviado

Por terras de lua,

Mas sempre sentindo

Que a razão é tua.

 

Que a razão é tua.

De modo bem teu:

Para ti foi feita

A lira de Orfeu.

 

(E nós a tangê-la

Para quem a ouve

Com ouvidos sábios,

Que nada comove!)

 

Gelado e queimado

Por neves e lavas.

Andei — mas sentindo

Que tu me esperavas.

 

Que tu me esperavas

Ansiosamente,

Como a mãe que espera

O seu filho ausente.

 

Ele regressa e conta-lhe

As suas andanças

Coração nos lábios

Como o das crianças.

 

Por isso ao ouvi-lo

A mãezinha boa.

Chorando e sorrindo

Tudo lhe perdoa.

 

Serás tu assim?

— Eu creio que és,

O meu bom e sério

Povo Português!

 

Fora eu tão simples

Como tu mereces

E nas minhas falas

Tu reconhecesses.

 

Como nesses contos,

Como nesses fados

Que escutas sorrindo

De olhos marejados!

 


Autor: Carlos Queirós (1907-1949)
Editado por: nicoladavid

 
 
Comments