"Roupa de Estar Fora de Casa"


Ao sair de casa, bagunço o aroma da mala.
Ensino os tecidos a compreender as cicatrizes
do amassado, prometo mostrar a água como ferida,
mas a roupa amarrotada precipita o mar roto, remoto
como areia de praia, que só jaz na praia.

Não me extravio com a cidade de dentro
se abandono roupas demais no armário. Um cheiro
que não partiu comigo me prende ao amargo.
Uma camisa que deixo por causa de uma mancha
reclama a falta que um sinal faz à pele do braço.
Há coisas que são o corpo.

Não me confundo com a cidade de fora
se meu tronco for uma prateleira vazia,
brevidade abortada de um farrapo. Mesmo uma
árvore se veste. Se uma roupa me tem amor,
sinto que meu esqueleto está em cabide errado.
Nu, vou longe sem sair do umbigo.
A nudez é a sua própria casa,

- a cidade, uma maneira de estar vestido.


Autor: Carlos Besen
Editado por: nicoladavid




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