"Imundo, mundo"

                     
                          I


Deixo minha casa tão suja,
tão dominada pelo pó de mim orvalhando,
que eu, por mais que sujo:
me sinto limpo.

Depois, deixo minha casa tão limpa,
tão recendida a pinho e eucalipto, a floral e lavanda,
que eu, por mais que limpo:
me sinto sujo.


                        II

Quando deságuo perfumes à flor da pele,
as portas fazem esquina com a rua,
desdobrando, como uma língua, as cadeiras de praia,
que são as da sala.

Bem odorado porque desodorado,
acesso jardins sem chamar a atenção das roseiras.


                        III

A grama já é mar.


                        IV

Mas quando soergo os braços fatigados como para uma cruz,
varrendo num longo espreguiçar os lamentos do corpo,
as janelas enferrujam os músculos das dobradiças,
jamais a lingüeta rígida da fechadura.

Quer porque gasto, quer porque economizo: sem desodorante,
nenhuma ginástica alarga os pulmões da casa,
e só me tonifico para mim mesmo, para nada.


                        V

Solto como um bicho, eu me enquadro,
como se usasse óculos exclusivamente para dissipar o foco.
Encarcerado nos bigodes da ratoeira,
eu me liberto, como se, enorme, pudesse correr,
como se, enorme, pudesse esconder-me.


                        VI

Sou como não sou e como não estou.
E se ser é sentir, até me dou razão,
de forma a entender depois
o que nego e o que afirmo agora.

Ser é eu me compreender quando puder.
Digo, tudo o que concluo: inutilizo.

Sou provisório como um corpo limpo.

 

Autor: Carlos Besen
Editado por: nicoladavid



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