Soneto XX

 

Senhor, põe outro aqui, na minha face!
Outro igual ao que vejo por detrás
do espelho... mas um outro que eu tocasse,
e não a imagem-sombra que me dás.
Um outro com seu tempo e seu espaço,
sua carne de amor em meu desejo...
e se abrace também quando me abraço
e se beije também quando me beijo.
Outro — doçura e cor do mesmo gomo,
para a fome da sombra anoitecida!
Assim, a morte, em mim, seria como

se eu ficasse a viver na sua vida!
Mas outro, para quê, se me criaste,
e sou, contigo, a flor da mesma haste?!

Autor: Campos de Figueiredo (1899-1965)
Editado por: nicoladavid

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