Diário

 

I


Hoje não houve dia sobre a terra.

O sol nasceu já morto.
Ai, Vida, nem sequer pensei em ti!
Mas foi o sol que não nasceu
Ou eu que não vivi?!

V

Deixem-me estar aqui a ouvir o temporal,
A tempestade apocalíptica
Desta noite infernal.
Deixem-me só
No meu quarto sossegado,
Dentro da minha casa entre oliveiras
Que o vento quer arrancar pela raiz.
Ah, deixem a minha alma
No meio da tormenta
Tão iludida e calma
Que se julgue feliz!

IX

Estou na vida
como um navio na montanha,
Sobre ondas mortas de rochedos,
Vendo o mar estendido além das dunas,
Até à curva azul onde o céu poisa.
O temporal das nuvens rasga as velas;
Sofre o navio o embate das procelas,
Mas não beija o cabelo das Nereidas!

XIII

Olho as águas do rio, as águas verdes

Onde tremulam árvores e nuvens...

E o céu, tão alto, desce ao lume de água

E depois é mais fundo, para baixo,
E prolonga-se além da terra baça
Que nas águas é céu.

O rio passa...
E a terra fica
A espera de outras nuvens, de outras águas…
É o céu é sempre o mesmo!

Autor: Campos de Figueiredo (1899-1965)
Editado por: nicoladavid

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