Estátua

 

Cansei-me de tentar o teu segredo:

No teu olhar sem cor, - frio escalpelo,

O meu olhar quebrei, a debatê-lo,

Como a onda na crista dum rochedo.

 

Segredo dessa alma e meu degredo

E minha obsessão! Para bebê-lo

Fui teu lábio oscular, num pesadelo,

Por noites de pavor, cheio de medo.

 

E o meu ósculo ardente, alucinado,

Esfriou sobre mármore correcto

Desse entreaberto lábio gelado:

 

Desse lábio de mármore, discreto,

Severo como um túmulo fechado,

Sereno como um pélago quieto.

 

Autor: Camilo Pessanha (1867-1926)
Editado por: nicoladavid

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