Ode


Se as tristes expressões do triste Alcino
Em versos dolorosos moduladas
Merecem de attenção um só momento,
Não recuzeis, Senhora, attenção dar-lhes:
Pois se a lyra é d’Alcino, o estro é vosso.

Sensiveis somos, Crime! acaso é crime
Affectos mil sentir no centro d’elles?
Tão frágil coração qual é o do homem
Não pecca, se do amor á mão se dobra.

Sentimentos gravados n’alma existem
Do nobre, do plebeu, quaes tem minh’alma.
Sensiveis todos são; nascemos todos
À voz d’um só creador, do mesmo sopro.
D’esta dôce cadeia, inquebrantavel
Tambem teu peito, Elmena, um elo fórma,
Estás tambem a leis iguaes sujeita;
O mesmo astro, que influe na tua alma
Na minha influe e verte amor em fogo.
E é tão violento este imperio, que ata,
Que vence os corações, que os funde e abraza,
Quanto é sincero, Elmena, ó doce Elmena,
O impulso de amor que me incendeia,
Nascido sim do amor; mas momentaneo
Qual o raio veloz que abraza e foge.
Eu vi-te, Elmena, vi-te, e, ao ver-te, subito,
Senti amargo fel juncto á doçura!
Um presente clarão me fulgue á mente;
A nuvem do passado a mente obumbra;
Um funebre porvir me aterra e assombra!
Meus olhos te procuram, vagam, correm;
Mas lagrimas lhe afogam os raios d’alma.
Meus labios, presumidos, se esforcejam
Na exposição da vacillante idéa;
Mas à dôr cordeal assombram labios!
Meus olhos outra vez a te se inclinan,
E convulsos de dôr não  veem teus olhos,
Teus fugitivos passos sigo attento…
Eis me inda outra vez, comtigo, Elmena!
Um penoso pudor me estorva as vozes…

Nem ao menos teu nome ouso pedir-te…
Para em meu coração, sacrario  d’elle,
Perpetuo altar, perpetuo culto dar-lhe!

Pouco depois, em vão te vou buscando…
Segues a extrema do caminho opposto;
A outra eu sigo… inda trez vezes olho;
Mas já não vejo quem a paz me rouba!
Adeus! Ai! para sempre, adeus, Elmena!
Cá fica Alcino, succumbindo à mágua!
Se algum dia, esta carta, acaso, vires,
Talvez que sintas commoções de pena:
Talvez te lembre do que viste, um dia,
N’uma romage, incógnito-mancebo
Que, constante, fitou teu rosto bello.
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Mas deixa, ó alma triste, a mágua, o pranto:
Um momento recobra d’alegria
Emquanto a Parca a Fatal foice afia!
Recobra de descanço um só momento;
Não lamentes um bem, que vae perdido;
Pois mais do mal se aggrava o sentimento,
Quando cumpre fallar do mal sentido


Autor: Camilo Castelo Branco (1825-1890) in ‘Ao Anoitecer da Vida (1874)’
Editado por: nicoladavid

Publicado no ‘Diário de Notícias n.º 8:767 _ anno 1890’(Ort. da época)


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