A Sereia

 

Em noutes de lua cheia
Já não se houve o cantar
D´aquella triste Sereia !


Oh pobre moça cahida,
Já sobre ti se fecharam
Os abysmos desta vida !


Diz-me, diz-me, ó lua cheia,
Choras tu na sepultura
D´aqquella pobre Sereia ?


Em que finar se vão findos
Aquelles cabelos d´ouro,
Aquelles olhos tão lindos !


Aguas malditas, podeste,
Tão linda e nova, matal-a,
Matar a pomba celeste !


Ai! pobre anjo da má sorte !
Descança, em fim, que não voltas
Desses abysmos da morte !


Nos ceus passa a lua cheia
Para ouvir teus cantares,
E tu não voltas, Sereia !


Mas um raio de luz pura
Côa-se através dos vidros
Sobre a tua sepultura.


Autor: Camilo Castelo Branco (1825-1890)
Editado por: nicoladavid

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