"Olhai os Lírios do Campo"


«Era uma vez um menino
Em seu jardim a brincar.
(Brincar, brincar, não brincava,
Sempre, sempre a meditar!)
Os outros vinham de longe
E a correr, para o levar.
(Correr, correr, não corria,
porém ficava a sismar.)
Na tarde de ouro se ouviam
Seus gritos enchendo o ar.
(Ele gritar, não gritava,
Mas calava-se a pensar.)
O mundo andava de roda
e tudo á volta a girar!
(Ele no entanto,cantava
Só a ver, a comtemplar .)
E tudo quanto se via
E tudo quanto passava,
Nos seus olhos se detinha,
Na sua alma ficava.

Tenho sido espectador
E toda a vida serei.
Estar de fora da dor,
Aquém do palco, do riso,
Longe da arena do mundo!
È insensatez? È juízo?
È bom? È mau? Não no sei.
Mas quanto drama profundo,
Devagar, devagarinho,
Sem voz, sem gesto, sem cor,
Se infiltra tão de mansinho
Na alma do espectador?

Autor: Cabral do Nascimento (1897-1978)
ditado por: nicoladavid



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