"O faroleiro"


Apenas este ilhéu é que é pequeno

O resto é tudo grande: o tédio, a vida,

O dia enorme, a noite mais comprida,

E o mar, calmo ou feroz, rude ou sereno;

 

O tempo, esse narcótico veneno,

A dor, essa letárgica bebida,

O desejo, essa voz enrouquecida,

E a saudade, o distante e branco aceno.

 

Tudo profundo, imenso, na amplidão,

Eterno quási na desolação

E sobrenatural na solidão.

 

A luz vermelha a reflectir-se além…

Nenhum vapor que vai, nenhum que vem…

Farol e faroleiro – e mais ninguém.

 

 

Autor: João Cabral do Nascimento (1897-1978)
Editado por: nicoladavid

Comments