"Desencanto"


Que silêncio mortal por trás da casa havia!
 
Espesso, volumoso e ondulante
 
Como uma sombra fria,

Escondia-se ali durante todo o dia

E alastrava-se à noite pela rua adiante...


Quando eu era pequeno, mal me apercebia
 
Dessa mudez terrível — calma e dominante.

Ela, porém, meus passos leves perseguia

E tornava-me a infância triste e vacilante.


Se alguma voz mais alta um momento se erguia.

Logo, no mesmo instante,

Vinha o eco expulsá-la, e ela fugia

Apavorada, trémula, hesitante.

Um silêncio mortal atrás da casa havia.

O mundo estava lá, tão perto e tão distante,

Por trás da casa... para além da sombra fria.
 
Belo? Cheio de luz? Não no sabia.
 
Era um mistério exasperante.


Correu a vida, e a atroz monotonia

Do tempo encheu de nada o espaço perturbante

Que atrás da casa havia

E onde o silêncio flutuava espesso e ondulante..


Ai o drama sem cor do dia-a-dia.

 

 

Autor: Cabral do Nascimento (1897-1978)
Editado por: nicoladavid



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