Feliz de Amor!


 

Não sabes que ao ver-te triste,
E pensativa a meu lado,

O rosto na mão firmado,

E os olhos postos no chão,
Calado, ansioso, anelante,
Quero ler no teu semblante
A causa da dor constante
Que te oprime o coração?

 

Pois não basta o meu amor
Para te dar a ventura?
Responde: quando a luz pura
Do sol vem beijar a flor,
Não lhe acende mais a cor?
Não lhe dá mais formosura?

 

Agora, quando se inflama
Em teu peito aquela chama,
A qual tudo se ilumina

De viva, encantada luz,
Dize: é quando, minha vida,
Pálida, triste, abatida,

A tua fronte se inclina,

E melancólica sombra,

De mal contida amargura
Nos teus olhos se traduz?!

 

Certeza de que és amada
Com quanto poder na terra

Em peito de homem se encerra,
Tem -la em tua alma gravada!
Então de fundo desgosto
Porque vem nuvem pesada
Carregar teu belo rosto?

 

Pois se ao vívido calor
Do sol a rosa fulgura

E redobra aroma e cor,
Não te há-de dar a ventura
A chama do meu amor?!

 

 

Autor: Bulhão Pato (1829-1912)
Editado por: nicoladavid

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