O Sonho

 

Oh que sonho! Oh! que sonho eu tive n'esta,

Feliz, ditosa e socegada sésta!

Eu vi o Pão de Assucar levantar-se

E no meio das ondas transformar-se
Na figura de um índio o mais gentil,

Representando só todo o Brazil.
Pendente ao tiracol de branco arminho

Concavo dente de animal marinho
As preciosas armas lhe guardava;

Era thesoiro e juntamente aljava.
De pontas de diamante eram as setas,

As hásteas d'oiro, mas as pennas pretas;
Que o indio valeroso altivo e forte

Não manda seta, em que não mande a morte,

Zona de pennas de vistosas côres

Guarnecida de barbaros lavores,
De folhetas e perolas pendentes,

Finos chrystaes, topazios transparentes,

Em recamadas pelles de sahiras,

Rubins, e diamantes e saphiras,
Em campo de esmeralda escurecia

A linda estrella, que nos traz o dia.

No cocar... oh que assombro! oh que riqueza!

Vi tudo quanto póde a natureza.
No peito em grandes letras de diamante

O nome da augustissima imperante.

De inteiriço coral novo instrumento

As mãos lhe occupa, em quanto ao doce accento

Das saudosas palhetas, que afinava,

Pindaro americano assim cantava.

Sou vassallo e sou leal,

Como tal,

Fiel constante,

Sirvo á glória da imperante,

Sirvo á grandeza real.

Aos elysios descerei

Fiel sempre a Portugal,

Ao famoso vice-rei,

Ao illustre general,

Ás bandeiras, que jurei,

Insultando o fado e a sorte,

E a fortuna desigual,

Qu'a quem morrer sabe, a morte

Nem é morte, nem é mal.

Autora: Bárbara Heliodora (1859-1819)
Editado por: nicoladavid

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