Conselhos a Seus Filhos

 

Meninos, eu vou ditar

As regras do bem viver,

Não basta somente ler,

É preciso ponderar,

Que a lição não faz saber,

Quem faz sábios é o pensar.

 

Neste tormentoso mar

D'ondas de contradições,

Ninguém soletre feições,

Que sempre se há de enganar;

De caras a corações

A muitas léguas que andar.

 

Aplicai ao conversar

Todos os cinco sentidos,

Que as paredes têm ouvidos,

E também podem falar:

Há bichinhos escondidos,

Que só vivem de escutar.

 

Quem quer males evitar

Evite-lhe a ocasião,

Que os males por si virão,

Sem ninguém os procurar;

E antes que ronque o trovão,

Manda a prudência ferrar.

 

Não vos deixeis enganar

Por amigos, nem amigas;

Rapazes e raparigas

Não sabem mais, que asnear;

As conversas, e as intrigas

Servem de precipitar.

 

Sempre vos deveis guiar

Pelos antigos conselhos,

Que dizem, que ratos velhos

Não há modo de os caçar:

Não batam ferros vermelhos,

Deixem um pouco esfriar.

 

Se é tempo de professar

De taful o quarto voto,

Procurai capote roto

Pé de banco de um brilhar,

Que seja sábio piloto

Nas regras de calcular.

 

Se vos mandarem chamar

Para ver uma função,

Respondei sempre que não,

Que tendes em que cuidar:

Assim se entende o rifão.

Quem está bem, deixa-se estar.

 

Devei-vos acautelar

Em jogos de paro e topo,

Prontos em passar o copo

Nas angelinas do azar:

Tais as fábulas de Esopo,

Que vós deveis estudar.

 

Quem fala, escreve no ar,

Sem pôr virgulas nem pontos,

E pode quem conta os contos,

Mil pontos acrescentar;

Fica um rebanho de tontos

Sem nenhum adivinhar.

 

Com Deus e o rei não brincar,

É servir e obedecer,

Amar por muito temer

Mas temer por muito amar,

Santo temor de ofender

A quem se deve adorar!

 

Até aqui pode bastar,

Mais havia que dizer;

Mas eu tenho que fazer,

Não me posso demorar,

E quem sabe discorrer

Pode o resto adivinhar.

Autora: Bárbara Heliodora (1859-1819)
Editado por: nicoladavid

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