Vai-te, fera cruel, vai-te, inimiga

 

Vai-te, fera cruel, vai-te, inimiga,

horror do mundo, escândalo da gente,

que um férreo peito, uma alma que não sente,

não merece a paixão que me afadiga.

 

O Céu te falte, a Terra te persiga,

negras fúrias o Inferno te apresente,

e da baça tristeza o voraz dente

morda o vil coração que amor não liga.

 

Disfarçados, mortíferos venenos,

entre licor suave em áurea taça,

mão vingativa te prepare ao menos;

 

e seja, seja tal a tua desgraça,

que ainda por mais leves, mais pequenos,

os meus tormentos invejar te faça.


Autor: Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)
Editado por: nicoladavid

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