Usurpando um minuto a meu lamento

 

 

Usurpando um minuto a meu lamento
Amigo sono os olhos me ocupava,
E enquanto o débil corpo descansava,
Velava amor, velava o pensamento:

Eis que em deserto e lúgubre aposento,
Que semimorta luz mais afeava,
Cri, Gertrúria (ai de mim!) que te avistava
Já sem cor, já sem voz, já sem alento:

Súbito acordo em lágrimas banhado,
E, das trevas palpando o véu medonho
Em vão busco teu corpo delicado:

Mas inda em ânsias trémulo suponho
Que me vaticinou meu negro fado
Dos males o pior no horrível sonho.

Autor: Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)
Editado por: nicoladavid
 
 
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