Tenho assaz conservado o rosto enxuto

 

Tenho assaz conservado o rosto enxuto
Contra as iras do Fado omnipotente;
Assaz contigo, oh Sócrates, na mente
A dor neguei das queixas o tributo.

Sinto engelhar-se da constância o fruto,
Cai no meu coração nova semente;
Já me não vale um ânimo inocente;
Gritos da Natureza! Eu vos escuto.

Jazer mudo entre as garras da Amargura,
De alma estóica aspirar à vã grandeza,
Quando orgulho não for, será loucura.

No 'spírito maior sempre há fraqueza,
E, abafada no horror da desventura,
Cede a filosofia à Natureza.


Autor: Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)
Editado por: nicoladavid

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