Temo que a minha ausência e desventura

 

Temo que a minha ausência e desventura
Vão na tua alma, docemente acesa,
Apoucando os excessos da firmeza,
Rebatendo os assaltos da ternura.

Temo que a tua singular candura
Leve o Tempo, fugaz, nas asas presa,
Que é quase sempre o vício da beleza
Génio mudável, condição perjura.

Temo; e se o fado mau, fado inimigo,
Confirmar impiamente este receio,
Espectro perseguidor que anda comigo,

Com rosto alguma vez de mágoa cheio,
Recorda-te de mim, dize contigo:
«Era fiel, amava-me, e deixei-o.»


Autor: Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)
Editado por:
nicoladavid

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