Que brilhante espectáculo pomposo

 

 “Elogio à admirável intrepidez com que,
no Domingo de 24 de Agosto de 1794,
subiu o Capitão Lunardi no balão aerostático”

Que brilhante espectáculo pomposo
Os meus olhos atónitos se oferece!
Da alta. Ulisseia o vulgo numeroso
Já no amplo foro de tropel recresce;
Soa o márcio concerto estrepitoso,
Que o sangue agita, os ânimos aquece;
Assoma aos ares neste alegre dia
Raro prodígio de arte e de ousadia.

O Tejo as ondas cérulas aplana,
Das ledas filhas cândidas cercado;
Vibra o tridente azul coa dextra ufana,
E rebate a braveza ao norte irado:
Contemplar em silêncio a audácia humana
Quer, inda que a portentos costumado;
Quer, encostando a face à urna de oiro,
Ver brilhar, ó Ciência, o teu tesoiro.

Lá surge ao vasto, ao fluido elemento
O globo voador; lá se arrebata
Sobre as asas diáfanas do vento.
E pelo imenso vácuo se dilata.
O pássaro feroz, voraz, cruento,
Quando rápido voo aos céus desata,
Quando as nuvens transcende e Febo afronta,
Da terra mais veloz se não remonta.

Portentoso mortal, que à suma altura
Vás no etéreo baixel subindo ousado,
Que ilusão, que prestígio, que loucura
Te arrisca a fim tremendo e desastrado?!
Teu espírito insano, ah! Que procura
Pela estrada do Olimpo alcantilado?
Não temes, despenhando-te dos ares,
Qual ícaro infeliz, dar nome aos mares?

Não temes (quando evites o espumoso
Campo, que é dos tufões Teatro à guerra!),
Não temes que num baque pavoroso
Teu sangue purpureie a dura terra?!
Tentas, qual Prometeu, roubar vaidoso
O sacro lume, que nos céus se encerra?!
Ah! Não, não faças tão medonho ensaio:
Ou teme o precipício, ou teme o raio.

Mas para quê, pasmado e delirante,
Brados e brados pelos ares lanço,
Se apenas do fenómeno volante
Coa vista perspicaz o voo alcanço?
Enquanto grito, o aéreo navegante
Sem rumo segue em plácido descanso,
Munido de ciência e de constância,
Surdo à voz do terror e da ignorância.

Gamas, Colombos, Magalhães famosos,
Eternos no áureo templo da Memória,
Sirtes domando, e mares espantosos,
De assombros mil e mil doirais a História;
Mas ir, dar leis aos ares espaçosos
E triunfo maior, e até mais glória,
Porque não traz à louca, à cega gente
Os males de que sois causa inocente.

Lá onde a feia inveja desgrenhada
Ao Mérito não comove horrível guerra,
Nem sobre chusma inerte e desprezada
Cospe o veneno, as víboras aferra;
Lá na ditosa, e lúcida morada,
Defesa aos vícios, de que abunda a Terra,
Guardai da Glória no imortal tesoiro
O nome de Lunardi em letras de oiro.

Que importa que no centro de Ulisseia
A luz, claro varão, não fosses dado?
De um frívolo acidente a louca ideia
Tenha embora poder no vulgo errado,
Que eu te consagro a dádiva febeia
Qual se berço comum nos desse o Fado;
Longe, vãs prevenções do homem grosseiro;
O sábio é cidadão do mundo inteiro.

Mas tu, cantor de Augusto e de Mecenas,
Roga a Jove te anime as cinzas frias,
E de alvo cisne renovando as penas,
Desperta o sacro fogo em que fervias:
Desce às montanhas flóridas e amenas,
Onde revivem de Saturno os dias;
Dali canoro entoa o nobre metro,
E em honra de Lunardi exerce o plectro.

De tornar-lhe perene a digna fama,
Só tu, só tu convéns à grande empresa;
Vem vê-lo ardendo em gloriosa chama,
Superior ao poder da Natureza;
Para novos prodígios punge, inflama
Seu ânimo, e, coa voz em estro acesa,
Supre-lhe, ó vate, os bronzes e alabastros;
Depois com ele voltarás aos astros.

Intrépidos mortais, oh quantos mundos,
Até’gora escondidos e ignorados,
Ireis pisar, afoitos e jucundos.
Pelos etéreos campos azulados!
Não fraquejeis, espíritos profundos,
E na pasmosa máquina elevados.
Ide incensar, entre os sidéreos lumes,
O congresso imortal dos altos numes.

É pouco para vós o mar e a terra;
Sim, a mais vos conduz o instinto, a sorte,
Ilustrados varões, enquanto a guerra
Rouba, estraga, horroriza o Sul e o Norte;
Enquanto as negras fúrias desencerra
Do tenebroso Inferno a torva morte,
Vinde à soberba fundação de Ulisses,
Entre o povo feliz viver felices.

Renovai-lhe espectáculos gostosos,
Exulte a curiosa Humanidade
Sobre os campos de Lísia venturosos,
Vestidos de serena amenidade.
Fugi, fugi aos climas desditosos
Onde, exposta à voraz ferocidade
De monstros de ímpia garra, aguda presa,
Estremece, desmaia a Natureza.

E tu, que da loquaz Maledicência
Tens açamado a boca venenosa,
Tu, que de racionais só na aparência,
Domaste a mente incrédula e teimosa,
Das fadigas, que exige árdua ciência,
Em vivas perenais o prémio goza.
E admira em teu louvor estranho e novo
Unida à voz do sábio a voz do povo.


Autor: Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)
Editado por: nicoladavid

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